por Felipe Carrilho
1- Vuvuzela é legal. Parece-me que as críticas da classe média brasileira ao instrumento não passam do velho preconceito elitista e eurocêntrico que a caracteriza. Vamos sugerir apresentações de orquestras sinfônicas nos monumentais estádios que serão construídos no Brasil para a Copa de 2014.
2- O mesmo preconceito está na maneira como a imprensa tratou as reclamações dos jogadores sobre a famigerada bola oficial que, de fato, é muito ruim. "Quem esse bando de analfabetos pensa que é para reclamar de uma bola feita por uma empresa de material esportivo tão competente?" era a indignação mal-velada pelos cronistas. E quem irá negar que as curvas traçadas pela gorducha eram mero produto do acaso, das variações da resistência do ar ou algo do gênero, e não dependiam da destreza ou habilidade do jogador que desferia o chute? Nessa Copa, o efeito foi na verdade um defeito. O lado bom é que alguns jogos enfadonhos saíram do 0 a 0.
3- Vejo com desconfiança o crescimento de uma espécie de "argentinismo" entre os torcedores brasileiros, que ficou bastante evidente nesse mundial. Diversas matérias foram exibidas pelas mídias do país em que conterrâneos declaravam o seu amor pela seleção dos hermanos. Admiro o futebol argentino e o jogo que caracteriza a seleção que o representa, mas não acho que nossos vizinhos sejam mais apaixonados pelo futebol do que os brasileiros. São mais dramáticos, certamente. Além disso, a composição racial da seleção brasileira, se não resolve o problema do racismo em nosso país, ao menos é o que mais se aproxima da realização, na cultura popular, do que gostaríamos de ter no plano social, uma nação em que a diferença representa o seu principal trunfo. Por isso prefiro o futebol brasileiro.
4- A Copa de 2010 foi um palco privilegiado da superstição, e Maradona, Mick Jagger e o polvo Paul foram os seus principais protagonistas, cada um ao seu modo. Algo paradoxal em um mundo tão pragmático e afeito à frieza matemática dos negócios. Até o técnico alemão Joachim Löw, da Alemanha filosófica e do materialismo histórico de Karl Marx, rendeu-se ao poder metafísico de sua camisa azul. O futebol, apesar dessa modernidade toda, parecer nos colocar em contato com o sagrado primitivo, de um tempo em que jogo e religião confundiam-se.
5- A final da Copa foi melancólica para os brasileiros, mesmo com as emoções provocadas por um gol de título feito no segundo tempo da prorrogação. A Holanda tem um time competente, com alguns bons jogadores. A Espanha é e foi superior na partida e mereceu a vitória. Mas acho que ambas as seleções, juntas, não estão à altura de uma final de Copa do Mundo. E talvez esse último comentário seja resultado de uma simples dor-de-cotovelo.
Anarquia, oi, oi!
Há 10 anos