
por Felipe Carrilho
Depois de assistir à vitória do Corinthians sobre o Fluminense, na última quarta-feira (8/7), lembrei-me de um artigo que li, há alguns anos, na saudosa revista Jazz+. O autor (cujo nome a minha memória etilicamente prejudicada não me permite lembrar) buscava defender o estilo bebop das acusações que, na época de seu aparecimento, o rotulavam de "música individualista" e "anárquica", no pior sentido do termo.
Privilegiando pequenos conjuntos, e promovendo uma verdadeira revolução rítmica – com o despontar de novas síncopas e imagens complexas no tempo –, o bebop proporcionou ao solista um destaque nunca pensado antes. O resultado foi o desenvolvimento de um fraseado anguloso, flexível e irregular, que exigia uma técnica instrumental muito apurada por parte do improvisador. Dizzy Gillespie e Charlie Parker foram os grandes precursores do movimento.
Essa espécie de primazia anárquica (no melhor sentido) do solista foi um dos principais pretextos utilizados pelos detratores do jazz para criticar a nova estética que surgia.
A resposta do crítico em questão, por outro lado, apresentava o bebop como um estilo de jazz caracteristicamente coletivo e harmônico. Segundo o autor, as condições determinantes para que o solista pudesse atingir a excelência em suas improvisações eram justamente o entrosamento entre os membros da chamada "cozinha musical" (baterista, contrabaixista e pianista) além, claro, da competência individual de cada um dos músicos. O resultado seria um som em que o esforço coletivo proporcionaria a melhor expressão da individualidade. Algo que alguns teóricos talvez comparassem com o que chamam, em política e sociologia, de "socialismo personalizante".
Não apenas concordo com o ilustre (e, aqui, anônimo) crítico, como acho que o futebol apresentado ultimamente pelo Corinthians edita, dentro das quatro linhas, a dinâmica musical do bebop. Mano Menezes montou um esquema tático em que o funcionamento, às vezes, perfeito de dez jogadores talentosos e entrosados possibilita a um solista fenomenal atingir o ápice de sua capacidade de improvisação futebolística.
Assim como a música do bebop, o futebol corintiano atual insinua, com sua prática coletivista e libertária, possibilidades de realização de utopias. Na era da massificação dos sons e da bola, a música popular e o futebol ainda são capazes de produzir demonstrações dissonantes de resistência. Basta querer ver e ouvir.










