quinta-feira, 19 de novembro de 2009

Ataques e contra-ataques do racismo na terra de Pelé*



por Felipe Carrilho

O futebol, verdadeira instituição nacional, pode ser visto como um indicador privilegiado da realidade social do Brasil quando abordado de modo mais profundo e analítico. Na semana da consciência negra, é oportuno tratar das contribuições do negro para a construção de nosso país, a partir de uma lente de observação futebolística.

No momento em que, numa reação editorial e midiática às políticas de afirmação implantadas e bem sucedidas, ganha força o argumento segundo o qual a inconsistência do conceito de raça, do ponto de vista biológico, inviabiliza a constatação do racismo na prática social brasileira, é necessário tratar do negro, indissociável da história de nosso país e de sua principal prática esportiva.

No início da trajetória do futebol em nossas terras, o negro tornou-se um elemento central para o debate a respeito dos rumos da nação. No final do século 19, com a abolição do regime escravista, optou-se por uma política de branqueamento de nosso povo, em que o incentivo à imigração europeia para abastecer as lavouras de café e a produção industrial representou o seu carro-chefe. Por meio da aposta em certo modelo de miscigenação, tal ideologia procurava diluir o elemento negro, sufocando a diversidade racial ao forjar uma sociedade pretensamente branca e homogênea.

Negritude disfarçada
O futebol, índice preciso do estado geral do país, explicitou as consequências da disseminação desse pensamento ao seu modo. Artur Friedenreich, por exemplo, filho de um comerciante alemão e de uma lavadeira negra, considerado o primeiro craque de nosso futebol, precisava disfarçar a sua negritude, esticando os cabelos e empapando-os com brilhantina para sentir-se socialmente incluído, à semelhança do que ocorreu no célebre caso do jogador do Fluminense, Carlos Alberto, que branqueou a sua pele com pó de arroz para fugir ao preconceito, em jogo realizado, ironicamente, no dia 13de maio (data que marca o fim da escravidão) de 1914.

No clássico livro “O negro no futebol brasileiro”, de 1947, Mário Filho narra a trajetória dos descendentes de escravos em sua luta por inclusão no futebol, pautado pelos valores elitistas do regime amador de seus primórdios. Segundo o autor, na década de 1920, por meio de clubes de formação popular, como o Bangu, o Vasco da Gama e o São Cristóvão, os negros pressionaram os dirigentes pela adoção do regime profissional, garantindo espaço de destaque na Copa do Mundo de 1938.

A década de 1930, além de marcar a adoção do regime profissional no esporte, foi palco de importantes elaborações teóricas a respeito da identidade do país. “Casa grande e senzala” (1933) e “Sobrados e mucambos” (1936), de Gilberto Freyre, são obras referenciais no que diz respeito ao elogio da mestiçagem enquanto trunfo da cultura nacional. E Freyre, em sua veia interpretativa, arrisca-se também no terreno do futebol. Para o consagrado antropólogo, a conversão do “jogo britanicamente apolíneo” em “dança dionisíaca”, por influência dos movimentos corporais do samba e da capoeira, seria resultado do processo de mestiçagem verificado no Brasil.

"Bodes expiatórios"
O samba e a capoeira, manifestações de matriz claramente africana, com raízes profundas nas religiões tradicionais dos negros, aparecem, então, “sublimados” na interpretação de Freyre, traduzidos como produto do que se chamaria de democracia racial, assim como ocorre, por extensão, com o modo característico de jogar futebol do brasileiro. A contribuição do negro é “promovida”, assim, à categoria de “progresso da mestiçagem”. Em última análise, é possível dizer, com algum exagero provocativo, que temos, desse modo, a realização do ideal de branqueamento e de homogeneização de nossa sociedade no mundo das especulações interpretativas sobre o Brasil.

Edições posteriores do livro de Mário Filho acompanham também a saga do negro no futebol até a realização da Copa de 1958, a primeira vencida pelo Brasil. Como não poderia deixar de ser, um dos momentos mais marcantes da narrativa de Filho refere-se à “tragédia”, à derrota da seleção brasileira para o Uruguai na final da Copa de 1950, no Maracanã. Diz o autor sobre a responsabilização ocorrida após o fracasso:

“Assim, três pretos foram escolhidos como bodes expiatórios: Barbosa, Juvenal e Bigode. Os outros mulatos e pretos ficaram de fora: Zizinho, Bauer e Jair da Rosa Pinto. Era o que dava, segundo os racistas que apareciam aos montes, botar mais mulatos e pretos do que brancos no escrete brasileiro”.

Percebe-se, por tal passagem, a persistência do preconceito racial no país após o advento das ideias do “futebol mestiço” e da “civilização mestiça”. Na ocasião em que a nacionalidade brasileira sofria um duro golpe dentro das quatro linhas, assim como costuma ocorrer cotidianamente nos momentos de acirramento social, como na busca por colocação no mercado de trabalho, por exemplo, fomos divididos em dois grupos: os brancos e os não brancos, os culpados, os negros.

Racismo escamoteado
Nem o coroamento da geração de Pelé e Garrincha, com o bicampeonato mundial, nem o ápice da demonstração do futebol-arte, transmitido ao vivo pela televisão, durante a Copa de 1970, foram capazes de extinguir o racismo à moda brasileira, aquele que está sempre escamoteado, com vergonha de si mesmo, mas que não se abstém de atuar. Depois de Barbosa, o primeiro goleiro negro a defender a seleção brasileira, como titular, em Copas do Mundo foi Dida, em 2006, após 56 anos de um sombrio intervalo. Nenhuma outra posição, do lateral ao ponta-esquerda, ficou tanto tempo sem ser ocupada por um negro no time nacional. E, hoje, as ocorrências de racismo no futebol continuam a ser registradas dentro e fora do país.

Na data em que se celebra a consciência negra no Brasil, é preciso retomar tal contribuição futebolística, dando ao negro o que é do negro. A ancestral concepção festiva da vida permitiu, aos descendentes de escravos, introduzirem um modo peculiar de tratar a bola e de ser brasileiro, um jeito de jogar e de viver voltado ao prazer e à beleza, que está na base do que se pode chamar de identidade nacional brasileira.

*Texto publicado na edição de 19 a 25 de novembro do jornal Brasil de Fato.

terça-feira, 27 de outubro de 2009

Uma velha rivalidade

por Felipe Carrilho

Meu avô é um descendente de espanhóis que se converteu ao corinthianismo quando, na flor da idade, chegou à metrópole, vindo de Bariri, no interior paulista, sua cidade natal.

O velho Fernando Carrilho não cansa de contar a história do dia em que, trabalhando como operário numa fábrica do Bom Retiro, foi convidado por um "camarada" para assistir, pela primeira vez, o Corinthians jogar no Parque São Jorge.

A paixão alvinegra imediatamente tomou conta do então jovem trabalhador, que foi colecionando episódios ao longo de suas décadas de vida corinthiana.

O escasso leitor pode estranhar o tom pessoal deste texto, tão incomum ao perfil de nosso famigerado blogue. Mas me lembrei de meu avô por causa do jogo que se aproxima, contra o Palmeiras, que representa a derradeira oportunidade de o Corinthians, de alguma forma, reabilitar a campanha mediocre que vem fazendo neste fraco Campeonato Brasileiro.

Há quase sessenta anos morando no bairro da Pompeia, reduto de italianos e descendentes, seu Fernando tem predileção por contar os "causos" que envolvem a rivalidade entre o Corinthians e o "Palestra". Ele chegou a assistir os embates entre os times das arquibancadas da Fazendinha: "Naquele tempo, não tinha tanta violência no jogo, mas se um ‘parmerense’ viesse com deboche, sentávamos o braço", costuma contar rindo.

As diferenças entre os clubes, para além das quatro linhas, também aparecem nos relatos de suas memórias: "Eles não gostavam de preto não. Preto não podia nem passar na porta do ‘Parmera’. Se um menino assim que nem você quisesse jogar lá, não deixavam".

Do alto de seus 91 anos de idade, meu avô, apesar da saúde de ferro, já não acompanha as idas e vindas dos campeonatos com o mesmo frescor da juventude. Numa das recentes visitas que fiz a ele, perguntou:

– Quem está em primeiro lugar no campeonato?

– Palmeiras, vô.

– "FIAS DA PUTA!" – respondeu prontamente.

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

Entrevista Vai Corinthians

Na segunda-feira (19/10), tive o prazer de participar do programa Apenas Corinthians, da rádio Vai Corinthians, apresentado pelos amigos e grandes corinthianos Ginaldo e Fábio, que segue abaixo. É só clicar no play.


quinta-feira, 8 de outubro de 2009

Acorda, Corinthians!

por Felipe Carrilho

Corinthians e Fluminense fizeram, como não era difícil de prever, um jogo muito fraco, que resultou num melancólico placar de 1 a 1.

O Corinthians sofreu o primeiro gol numa cobrança de escanteio logo no início da partida, e o Fluminense, por alguns minutos, deu a impressão de que faria uma boa partida finalmente. Mas ainda no primeiro tempo o Corinthians empatou com Dentinho (que comemorou timidamente o gol) e passou a dominar o adversário. No segundo tempo, o Corinthians limitou-se a administrar o resultado, mostrando-se nitidamente satisfeito com o placar medíocre.

Depois da partida, como todos podem ler nos noticiários esportivos, Mano Menezes mostrou-se muito irritado e, pela primeira vez à frente do Corinthians, fez veementes críticas públicas aos jogadores, acusando-os de jogar de "barriga cheia", sem empenho, "pensando em 2010".

A atitude de Mano tem duas facetas. A primeira é a mais sincera, que constata, de fato, um relaxamento exagerado do elenco, após as conquistas do Campeonato Paulista e da Copa do Brasil. Declarações de Ronaldo, depois da derrota por goleada para o Goiás, e a quase ausência de comemoração por parte de Dentinho no gol de ontem são indícios incontestáveis dessa realidade e justificaram, sem dúvida, a atitude do treinador.

A consistência da constatação de Mano, no entanto, não pode encobrir um outro lado mais grave dessa história e que foi habilmente disfarçado pelo discurso do técnico: O Corinthians não tem mais padrão de jogo!

Não gosto de evocar o episódio que foi classificado por muitos como "desmanche", com as vendas de Cristian, André Santos e Douglas para o futebol exterior. Só o faço agora para apontar o fato de que a diretoria do Corinthians não soube "repor as peças", para usar uma terminologia produtivista, tão apropriada para o futebol contemporâneo e que o Mano ainda não encontrou um esquema tático para o novo time.

Cristian era a alma de nosso meio campo, o mais corinthiano de nossos jogadores, com seu estilo técnico e aguerrido, e foi substituído por Marcelo Mattos, que nem no auge de sua carreira jogava a metade do futebol do meio-campista vendido.

André Santos saiu do Corinthians para atuar no futebol turco e hoje é o dono da camisa 6 da seleção brasileira que disputará a Copa no ano que vem. Para o seu lugar, temos o bom e sempre machucado Marcelo Oliveira, o improvisado e mal sucedido Marcinho, o limitado zagueiro Diego. Ontem jogou Balbuena, numa espécie de improviso do improviso.

Douglas, muito importante na campanha da Série B, foi marcado para sempre pelos "Ronaldomaníacos" depois de arriscar um chute ao invés de passar a bola ao galáctico atacante. Hoje, sua ausência é lamentada diante do começo nada animador dos badalados Edno e, principalmente DeFederico, que pode vir, é verdade, a ser um grande jogador...

Mas o problema é que episódios como a contratação midiática do argentino juvenil e os rumores intermináveis de uma possível vinda de Riquelme colocam o planejamento do Corinthians em jogo. Qual o caminho que estamos escolhendo para chegar à esperada Libertadores do centenário? Lamento dizer isso, mas a direção corintiana de hoje lembra a dos sombrios tempos da MSI, ao colocar o marketing acima do futebol, apostando em projetos megalomaníacos, pagos com o retalhamento do manto sagrado e com a extorsão do corinthiano, vitimado por uma lógica elitista aplicada na administração de nosso futebol.

O grande time que o Corinthians tinha até alguns meses atrás foi construído lentamente, levando mais de um ano para atingir o ápice de seu desempenho. Parece que isso foi esquecido... A contratação de Ronaldo coroou um projeto forjado num dia a dia de muita dedicação, entre erros e acertos, que culminou num estilo de jogo coletivo e libertário, como assinalamos depois da partida do primeiro turno do Brasileirão contra o próprio Fluminense.

O Corinthians precisa acordar, a nação corinthiana necessita ver o que realmente está acontecendo! É preciso ir além da mera cornetagem para que o Corinthians possa retomar o seu rumo a tempo e para que 2010 não seja uma tragédia anunciada.

quarta-feira, 30 de setembro de 2009

O futebol e o Brasil na marca do pênalti

por Felipe Carrilho

Todos acompanharam nos noticiários que o presidente da Fifa, Joseph Blatter, pretende proibir a paradinha nas cobranças de pênalti. O mandatário suíço considera a jogada “uma maneira de roubar”, que deveria ser punida com “cartão amarelo e, na insistência, o vermelho”.

Segundo Blatter, ludibriar o goleiro assim já é um desvio de postura condenado pela Fifa, e a permissividade com que alguns árbitros têm tratado o lance seria resultado de uma má interpretação das regras. A Fifa estaria, por isso, preparando uma reedição do regulamento, cujo objetivo é reforçar a condenação à jogada, que deve entrar em vigor ainda neste mês.

Para além das discussões protagonizadas nas grandes mídias do futebol, em que os jornalistas, em geral, não conseguem ultrapassar o âmbito de suas preferências pessoais, é preciso desvendar o substrato do embate que se coloca.

Em seu livro Futebol ao sol e à sombra, o escritor uruguaio Eduardo Galeano assim definiu a importância de Friedenreich para o nosso futebol:

“Este mulato de olhos verdes fundou o modo brasileiro de jogar. Rompeu com os manuais ingleses: ele, ou o diabo que se metia pela planta de seu pé. Friedenreich levou ao solene estádio dos brancos a irreverência dos rapazes cor de café que se divertiam disputando uma bola de trapos nos subúrbios. Assim nasceu um estilo, aberto à fantasia, que prefere o prazer ao resultado. De Friedenreich em diante, o futebol brasileiro que é brasileiro de verdade não tem ângulos retos, do mesmo jeito que as montanhas do Rio de Janeiro e os edifícios de Oscar Niemeyer.”

De uma sociedade, do início do século 20, marcada por desigualdades e tensões raciais e, portanto, caracterizada pela presença da malandragem no jogo social,
nasceu um futebol calcado no improviso e movimento ilusório dos corpos brancos, negros e mulatos dos jogadores. O Brasil moldava o seu futebol, mas por este forjava a sua própria identidade.

Para Roberto DaMatta, a capoeira, arte por excelência da ginga e ludíbrio corporal, seria a grande matriz desse jeito de praticar o futebol. De fato, o propalado “modo
brasileiro de jogar” pode ser visto, historicamente, como uma resposta do país ao reconhecimento anterior de uma escola de futebol argentina e uruguaia, evidenciando também a sua singularidade em relação ao jogo verificado em seus países vizinhos.

Apesar de a atual discussão não ser direcionada explicitamente ao Brasil pelo presidente da Fifa, não há dúvida de que foi o recrudescimento da paradinha nessas terras o fato que desencadeou tal reação normalizante. O fenômeno é tão revestido de brasilidade que vale lembrar o caso do jogo entre Palmeiras e Argentinos Jr., pela Copa Sul-americana de 2008, em que o árbitro colombiano José Buitrago puniu o jogador brasileiro Diego Souza com cartão amarelo por fazer uso da jogada.

Pier Paolo Pasolini, nos anos 70, falava de um futebol praticado em prosa, o europeu, e de outro jogado em poesia, referindo-se ao sul-americano e, principalmente, ao brasileiro. Era a ideia de que, grosso modo, os europeus
exerciam um jogo mais linear e finalista, enquanto os brasileiros jogavam de maneira digressiva e imprevisível.

Resultado contraditório da implantação de um ideal de civilização europeu, o Brasil gerou, assim, um futebol que se revelou uma espécie de efeito colateral de tal experiência histórica. Sob essa perspectiva, o ressurgimento da paradinha pode ser lido como uma nova (e hoje rara) demonstração radical da identidade do futebol brasileiro e do próprio país. Assim, o que a Fifa pretende fazer ao proibi-la soa, num nível mais profundo, como uma imposição cultural europeia com raízes no período colonialista, que vai ao encontro do ideal de massificação do futebol, pasteurizando
o seu conteúdo e tornando-o mais “civilizado” e chato.

sábado, 12 de setembro de 2009

P A R A B É N S




Neste mês tão significativo para o futebol mundial, mandamos um grande parabéns para o Felipão, o grande "capo" deste blog. Parabéns pela sua luta, por seus ideais e por sua fé no Corinthians, nos amigos e na vida. É bom ter um irmão como você (esse blog está ficando sensível demais).

terça-feira, 1 de setembro de 2009

quarta-feira, 29 de julho de 2009

O drama deste blog


por Felipe Carrilho

Lendo o livro "Veneno Remédio - o Futebol e o Brasil", do professor da USP e músico José Miguel Wisnik, deparei-me, logo no início, com a formulação da seguinte problemática:

O leitor a quem se dedica este livro não é evidente: em geral, quem vive o futebol não está interessado em ler sobre ele mais do que a notícia de jornal ou revista, e quem se dedica a ler livros e especulações poucas vezes conhece o futebol por dentro.
Sem esquecer da modéstia deste nosso projeto em relação à obra do professor, acho que o nosso blog demonstra claros sinais de sofrer também as consequências deste nó em que se localiza o futebol no Brasil.

Está certo que o objetivo original do veículo de a partir do futebol, promover reflexões a respeito do conjunto da sociedade e de suas manifestações políticas, artísticas, culturais etc não é lá muito modesto e talvez explique a baixa e decadente publicação de novos textos. Mais do que isso, quiçá justifique a tímida repercussão que os temas aqui propostos provocam junto aos ainda possíveis leitores. A nula repercussão que este artigo proporcionará será uma prova cabal e trágica desta maldição.

Entretanto, o maior drama deste blog talvez esteja contido na formulação a seguir de Wisnik. Espero que não.

Não é incomum, também, que intelectuais vivam intensamente o futebol, sem pensá-lo, e que resistam, ao mesmo tempo, a admiti-lo na ordem do pensamento. Nesse caso, aqueles dois personagens a que nos referimos no começo podem se encontrar numa pessoa só.

terça-feira, 28 de julho de 2009

Insatisfação?

por Rui de Castro

Julho de 2009 – Estamos na metade do ano e o Corinthians já deu mais motivos para o seu torcedor sorrir do que qualquer outro time neste país. Vou até esquecer a conquista irrepreensível do ano passado, mas vou citar só os títulos deste ano, lembrando que ainda temos mais cinco meses até o final de 2009. O ano começou com a conquista da Copinha, belo início para nós. Papamos o Paulistão de forma invicta, ganhamos a Copa do Brasil, e ainda estamos em quinto lugar no Brasileirão. Para um time que conquistou tanto está, sim, muito bom.

A tal ressaca pós-títulos não nos atingiu, mas mesmo assim estamos chateados, preocupados e revoltados. Perdemos neste último domingo, dia 26, de um time que ainda não ganhou nada neste ano, e, provavelmente, não ganhará.

Como estão nossas “vítimas” por aí? Vamos começar pelo Santos: também não ganhou nada e está apenas em 12º no campeonato. Detalhe: perdeu em casa do Flamengo, isso sim é ressaca. O São Paulo, outra vítima, não conquistou a Libertadores, dançou no Paulistão, demitiu técnico e, ainda, não saiu do 11º lugar. Pela Copa do Brasil, eliminamos o Atético Paranaense, que está na zona de rebaixamento. Boa sorte a eles. Tiramos da “jogada” o Fluminense, que também está em situação crítica, 19º. Boa sorte. Mais um carioca, o Vasco, que hoje está na Série B, ainda fora da zona de acesso. Espero, sinceramente, melhor sorte hoje à noite (minha mãe, apesar de corinthiana, tinha imensa simpatia pelo time cuzmaltino). Finalmente o Internacional, que está um ponto à frente do Timão, apenas um ponto, diferença bem pequena para um time que há pouco tempo era a sensação do País.

É claro que temos motivos para nos preocupar, esse tal desmanche não está sendo bom, alguns jogadores vão deixar saudade, com o Cristian. O Douglas é craque, mas parecia meio desanimado; o André Santos estava louco para ser negociado, depois da seleção, então. Agradeço pelo gol na final da Copa do Brasil, mas quando um jogador quer sair, é melhor deixar. O Cristian recebeu uma proposta, considerou-a interessante, mas vai fazer falta neste elenco, não só pela qualidade, mas também pela identificação. As lágrimas na despedida mostraram bem isso. Torcedores de outros times devem ter ficado com inveja.

Reforços estão chegando, outros virão e eu estou otimista com o Timão, alegria do povo.

sexta-feira, 10 de julho de 2009

Futebol musical


por Felipe Carrilho



Depois de assistir à vitória do Corinthians sobre o Fluminense, na última quarta-feira (8/7), lembrei-me de um artigo que li, há alguns anos, na saudosa revista Jazz+. O autor (cujo nome a minha memória etilicamente prejudicada não me permite lembrar) buscava defender o estilo bebop das acusações que, na época de seu aparecimento, o rotulavam de "música individualista" e "anárquica", no pior sentido do termo.

Privilegiando pequenos conjuntos, e promovendo uma verdadeira revolução rítmica – com o despontar de novas síncopas e imagens complexas no tempo –, o bebop proporcionou ao solista um destaque nunca pensado antes. O resultado foi o desenvolvimento de um fraseado anguloso, flexível e irregular, que exigia uma técnica instrumental muito apurada por parte do improvisador. Dizzy Gillespie e Charlie Parker foram os grandes precursores do movimento.

Essa espécie de primazia anárquica (no melhor sentido) do solista foi um dos principais pretextos utilizados pelos detratores do jazz para criticar a nova estética que surgia.

A resposta do crítico em questão, por outro lado, apresentava o bebop como um estilo de jazz caracteristicamente coletivo e harmônico. Segundo o autor, as condições determinantes para que o solista pudesse atingir a excelência em suas improvisações eram justamente o entrosamento entre os membros da chamada "cozinha musical" (baterista, contrabaixista e pianista) além, claro, da competência individual de cada um dos músicos. O resultado seria um som em que o esforço coletivo proporcionaria a melhor expressão da individualidade. Algo que alguns teóricos talvez comparassem com o que chamam, em política e sociologia, de "socialismo personalizante".

Não apenas concordo com o ilustre (e, aqui, anônimo) crítico, como acho que o futebol apresentado ultimamente pelo Corinthians edita, dentro das quatro linhas, a dinâmica musical do bebop. Mano Menezes montou um esquema tático em que o funcionamento, às vezes, perfeito de dez jogadores talentosos e entrosados possibilita a um solista fenomenal atingir o ápice de sua capacidade de improvisação futebolística.
Assim como a música do bebop, o futebol corintiano atual insinua, com sua prática coletivista e libertária, possibilidades de realização de utopias. Na era da massificação dos sons e da bola, a música popular e o futebol ainda são capazes de produzir demonstrações dissonantes de resistência. Basta querer ver e ouvir.

quinta-feira, 2 de julho de 2009

Incontestável

por Felipe Carrilho

A vitória de ontem foi a cristalização de um processo que começou na Série B, quando o Corinthians começou a traçar um planejamento de fôlego. E não há dúvida de que Mano Menezes é o grande responsável por isso, sempre equilibrado e mantendo uma liderança carismática.

Sob a batuta do treinador, vencemos de maneira incontestável o time que era considerado "o melhor do Brasil" pela grande maioria da imprensa esportiva. E mesmo sofrendo contestações inadequadas ou falaciosas (como a de que o Inter teria perdido o primeiro jogo devido aos desfalques que sofreu) e tentativas de vencer a competição nos bastidores (com o lançamento, por parte de um dirigente-piadista do Internacional, do infame DVD), passamos pelo time completo deles, fora de casa. O placar poderia ter sido o de uma vitória de muitos gols de diferença se o Corinthians não tivesse liquidado completamente a partida nos primeiros 45 minutos.

No ano do centenário, vamos tentar conquistar a Libertadores e estamos no caminho certo. Sem qualquer tipo de propaganda, vale a reprodução da imagem abaixo.


Pelo Corinthians, com muito amor, até o fim!!!

Eu já sabia...

por Renato Godoy

Por enquanto, temos que relembrar aquele lugar-comum: uma imagem vale mais do que mil palavras. Segue a imagem:


sexta-feira, 26 de junho de 2009

quarta-feira, 24 de junho de 2009

Melhores do que em 2008

Por Renato Godoy

Penso que todo o corinthiano já notou que o time que irá a campo no próximo dia 1°de julho é bem superior àquele que foi derrotado pelo Sport na Ilha do Retiro em 2008. Olhando atentamente às escalações, nota-se uma mudança radical, para melhor, no time alvi-negro. Comparemos então o time que foi à final da Copa do Brasil no Recife com o provável elenco do dia 1º:

2008
Felipe; Carlos Alberto (Lulinha), Chicão, William e André Santos; Fabinho, Eduardo Ramos, Alessandro e Diogo Rincón (Acosta); Dentinho (W. Saci) e Herrera

2009
Felipe; Alessandro, Chicão, William e André Santos; Cristian e Elias; Dentinho, Douglas e Jorge Henrique; Ronaldo

Sem entrar no mérito da qualidade, nota-se de antemão que o time tornou-se mais ofensivo. De um 4-4-2 defensivo, passamos para um 4-2-3-1, ressucitando os pontas. Enquanto em 2008 tínhamos 3 volantes, reduzimos esse número para dois. E são exatamente esses dois, Cristian e Elias, que tornam a equipe de hoje muito superior àquela. Com firmeza na marcação e velocidade e habilidade para sair jogando, são o grande diferencial desta equipe. A ausência de Eduardo Ramos certamente preenche uma importante lacuna no meio corinthiano.

É louvável também o deslocamento de Alessandro para a lateral-direita, que tinha como titular o improvisado Carlos Alberto - muito esforçado, e só. O setor ganhou em muito com o camisa 5. Aliás, vale forçar a memória. Desde quando não tínhamos tanta segurança na lateral-direita? Creio que desde 2002/03 com o Rogério, que em seguida passou para o meio.

Outra observação pertinente é sobre a qualidade dos reservas que entraram no jogo do Recife. Hoje, ao invés de Lulinha, entraria Boquita. No lugar de Saci, Marcelo Oliveira. Dois upgrades, sem dúvida - com o perdão do upgrade. Quanto a Acosta, acredito que Souza empata com ele em termos de "qualidade".

Ocorreram melhoras também naqueles que continuaram no time. Felipe, está aparentemente mais seguro, não falha desde o gol de Diego Souza, em março. No ano passado esse intervalo era impensável.
William e Chicão dispensam comentários. André Santos e Dentinho tiveram oscilações, mas apresentam bom nível técnico. O jovem atacante finaliza melhor e é mais objetivo do que há um ano.

Não é justo comparar Herrera com Ronaldo. Sinto falta do atacante argentino nessa equipe, podia ser, na pior das hipóteses, um bom reserva, ou fazer a função de Dentinho ou Jorge Henrique. Por fim, é até ridículo ressaltar, com o camisa 9 - alguém imaginava que ele viesse quando da final de 2008? - o Corinthians ganhou mais poder de decisão. Decisão, que parece ser o ambiente preferido do atacante. Que assim seja.

Mano Menezes, espinha dorsal desse time, também está melhor, mais ousado e quase infalível. Acredito que dificilmente adotará uma postura acanhada - covarde, pra quem preferir - como naquele fatídico 11 de junho de 2008.

terça-feira, 23 de junho de 2009

Parabéns, Juvenal




por Renato Godoy


No dia 15 de fevereiro de 2009, duas notas interessante foram publicadas no Painel FC, seção da Folha de S. Paulo onde a diretoria do SPFC parece ter primazia. Esperei um tempo para relembrar esse assunto, por motivos óbvios. Aí vão as pérolas do dirigente máximo do clube em crise, que agora ostenta Ricardo Gomes como treinador.

"Direta. Diretores do São Paulo cutucam o Corinthians dizendo que a contratação de Washington foi mais eficiente do que a de Ronaldo.

Indireta. Juvenal Juvêncio, presidente são-paulino, não cita o corintiano ao falar de Washington, mas diz: "Ele chegou, jogou em seguida, fez gols e não é visto em boates."

Parabéns à diretoria do São Paulo e ao interino-olheiro Milton Cruz pelas contratações cirúrgicas de praxe, como Washington, Eduardo Costa e Jean Rolt. Jogadores que nunca são vistos em boates, nem em campo.

domingo, 21 de junho de 2009

quinta-feira, 18 de junho de 2009

Pacaembu e Fiel, festa completa

Por Renato Godoy


Desde as imediações do Pacaembu, percebia-se o clima de festa. Festa essa que se acentuou com as notícias que chegavam de Montevidéu. Quando o Corinthians entrou em campo, uma sequência ensurdecedora de fogos de artifício e um belo espetáculo de luzes, sinalizadores e papel picado. Faltaram as bandeiras, há tanto tempo proibidas de forma estúpida nos estádios paulistas.

Quanto ao jogo, São Jorge parece ter atendido às preces do Felipe e iluminou Mano Menezes na escolha do substituto de André Santos. Isto porque Marcelo Oliveira fez excelente partida, corrigindo a principal deficiência que o time encontrou na segunda semifinal contra o Vasco: a saída de bola pela esquerda.

Marcelo esteve bem no apoio e nos desarmes precisos na defesa. É verdade que nos minutos iniciais apresentou uma certa insegurança, que veio abaixo após sua participação na bela jogada que resultou no primeiro gol.

Jorge Henrique fez por merecer ter anotado o primeiro tento alvinegro. Em jogada pelo meio, acionou brilhantemente Marcelo Oliveira pela esquerda, décimos de segundo antes do que seria um desarme. O lateral esquerdo corinthiano viu Jorge surgir na entrada da área, sem marcação – que estava atenta a Ronaldo e Dentinho, mais à frente.

1x0 e festa mais acentuada no Pacaembu, com o maior público do ano, 37 mil, tal como a renda, 1,8 milhões – impulsionada pela carestia dos ingressos, alvo de protesto no intervalo do jogo.

“O resultado já é bom”, diziam alguns, eu incluso.

Ronaldo parecia estar melhor do que nas últimas apresentações. Sobretudo quando jogava mais recuado, apresentando-se como um bom meia, invertendo bolas e fazendo lançamentos que caberiam a Douglas – novamente em noite pouco inspirada.

Uma boa discussão para travar em boteco seria: o seu chute defendido por Lauro no primeiro tempo foi um gol perdido ou uma grande defesa? Fico com a segunda hipótese, apesar de acreditar que se sua forma estivesse melhor, chegaria um pouco antes, podendo concluir com mais clareza.

O Corinthians voltou o mesmo para o segundo tempo. Em lance falsamente polêmico, Elias lançou Ronaldo, que fez jus ao nome e cortou Índio e de pé esquerdo – um de seus melhores pés – colocou entre Lauro e a trave. Mais festa.

A partir daí, o jogo é de Felipe. Na falta cobrada por Andrezinho, o corinthiano pessimista, eu incluso, lembrou do lance contra o Flamengo, há algumas semanas. Mas aqui é Felipe, não Bruno. Bela defesa.

No lance mais difícil do jogo, Taison fica de cara pro gol, tenta tirar de Felipe, em vão. Agachado, Felipe faz a defesa da partida.

Já no fim do jogo, Guiñazu entra sozinho na área e desfere forte chute. Felipe põe para escanteio. Ainda é cedo, eu sei. Mas aquele que virou vilão no ano passado, começa a ganhar a aura de ídolo.

Ressalto o mérito de Mano Menezes na recuperação do nosso camisa 1. Não podemos esquecer que quando Felipe vinha numa fase repleta de falhas, que culminou com a derrota para o Sport, o treinador o afastou da titularidade, para evitar a pressão, e o reintegrou em seguida.



Cautela e ousadia

Mesmo com um resultado muito bom, o exemplo de 2008 tem que estar presente. É jogar sem medo. Até porque um gol em Porto Alegre exige 4 deles. O time deles não é qualquer coisa, mas quem tem que temer algo são eles.

O corinthiano mais otimista, eu incluso, acreditava que os dois gols e a expulsão do descontrolado Leandrão diminuiriam o ímpeto do time do sul. Ledo engano. Ainda que o Timão tenha controlado a maior parte do certame, o Internacional não deixou de buscar o temível gol fora de casa em momento algum.

Aliás, vale um parênteses para falar sobre esse garoto Taison. Infernal, habilidoso e veloz. Perigo constante para a zaga corinthiana. Talvez seja mais imprescindível do que Nilmar, para a equipe de vermelho. Apesar de esses prêmios de federação serem meio suspeitos, é simbólico que em seu primeiro estadual tenha faturado os prêmios de artilheiro, revelação e melhor do campeonato. Enfim, que esteja menos inspirado no dia 1º de julho!

quarta-feira, 17 de junho de 2009

O lado esquerdo

por Felipe Carrilho


Como já é sabido por todos, o Corinthians terá o desfalque de André Santos para o jogo desta noite contra o Internacional.

Ao contrário do que quase toda a cobertura jornalística vem enfatizando, a ausência do lateral representa um dano ao Timão equivalente àquele causado ao Inter pelos desfalques de Bolívar, Kléber, D'Alessandro e Nilmar.

Apenas partindo de um simplório raciocínio matemático é possível concordar com tal tese da imprensa, pois ninguém pode negar que o 4 é um número maior do que o 1. Mas um mínimo de esforço analítico é suficiente para relativizar esta constatação.

Enquanto o Internacional virá ao Pacaembu buscando prioritariamente empatar, ou perder por uma diferença de poucos gols, o Corinthians tem a obrigação da vitória. As ausências mais sentidas pelo Inter - D'Alessandro e Nilmar - referem-se a jogadores fundamentalmente ofensivos. E Andrezinho, por exemplo, provável substituto do meia argentino, tem o forte poder de marcação como uma de suas características.

No Corinthians, por outro lado, o desfalque de André Santos representa um duro golpe na armação das jogadas ofensivas, função que será tão importante para o jogo desta noite. O problema também é agravado pela falta de substitutos com características semelhantes para a posição.

Entre os condidatos à vaga, Diego é um bom zagueiro, mas na partida contra o Vasco, no Pacaembu, mostrou-se um lateral improvisado muito deficiente para realizar a saída de bola. Wellington Saci, embora mais parecido com André Santos na questão da ofensividade, costuma falhar muito na marcação. E, finalmente, Marcelo Oliveira, ótimo jogador, ainda está voltando, depois de 2 anos se recuperando de contusões...

Será uma dura decisão para Mano Meneses, e que São Jorge o ilumine!

Vai Corinthians!!!

sexta-feira, 5 de junho de 2009

VIOLÊNCIA NO FUTEBOL

por Rui de Castro

Nesta semana tivemos mais um encontro homicida entre torcedores de times rivais, causando, lamentavelmente, a morte de um deles. A violência no futebol é um assunto que precisa ser debatido cada vez mais, e a paz praticada mais ainda. Ontem tivemos mais um lance terrível de violência no jogo entre Santos e Santo André.

Apesar do encontro entre “santos”, uma atitude diabólica, mais uma, do goleiro santista fábio costa (já não merece mais letra maiúscula) contra o lateral Gustavo Nery, foi um dos pontos negativos da partida. É difícil criticar a violência dos torcedores, quando um profissional age da forma que o goleiro agiu. Brigas na vida deste rapaz, pai de família, têm sido constantes. Esse é um péssimo exemplo para todos, todos os que amam, que acompanham o futebol.

Alguns ainda o consideram ídolo, mas, violento e louco dessa forma, não pode jamais ocupar o lugar de um Gilmar dos Santos Neves, não dá. Ídolos têm que ser exemplo para a sociedade, e esse louco não pode ser considerado bom exemplo para ninguém. Não dá mais para apoiar pessoas como ele no futebol.

quinta-feira, 4 de junho de 2009

Agora sim, é Corinthians















por Rui de Castro

O Timão chegou mais uma vez a uma final de Copa do Brasil, a sua segunda consecutiva. Desta vez, enfrentando o Vasco na semifinal, decidirá o título contra o Internacional de Porto Alegre.
O que quero ressaltar neste texto é a maneira com que o alvinegro do parque São Jorge conquistou o direito à decisão. Parece-me que o fiel torcedor estava mal acostumado. A série B foi vencida de maneira bem fácil, confesso que mais fácil do que eu poderia imaginar; veio o Campeonato Paulista, e mais um título. O time mostrando entrosamento, vencendo as partidas, Ronaldo, o fenômeno, fazendo gol a cada partida e, de repente... o Corinthians voltou a ser Corinthians, nosso velho e bom Corinthians.

O fiel torcedor se acostumou a ver o time na fila, mesmo assim nunca desanimou. Depois de 1977, com o título paulista, outras conquistas vieram, inclusive o Brasileirão de 1990, nosso primeiro campeonato brasileiro. Mas o sofrimento sempre nos acompanhou. Quem não se lembra do título nacional de 2005, com Tevez e companhia? A última partida, a que decidiu o campeonato, foi “corinthianamente” sofrida.

Ouvi de muitos amigos, alguns não-corinthianos, que o Corinthians já estava na final, pois venceria o Vasco com facilidade. Eu não tinha tanta certeza assim. O que se viu no Pacaembu, nossa casa, foi uma partida que deixou os torcedores locais, em alguns momentos, com o coração na mão. Muito ataque do Vasco, muito sofrimento para nós, apesar da deficiência do ataque cruzmaltino. Alessandro voltou a jogar com seriedade, e fez a diferença em campo. Felipe salvou, mas em alguns momentos parece que “dormiu” durante a partida. Ronaldo mostrou que talvez não devesse ter ficado fora nas últimas partidas; é craque, mas está precisando de mais ritmo de jogo (o drible em Fernando Prass, sem a conclusão para o gol, mostrou bem isso).
Enfim, nos classificamos. De maneira sofrida – eu sofri muito – nos classificamos; como o corinthiano já cansou de ver, nos classificamos. E que venha o Inter e o título. Com sofrimento, tudo bem, já estou acostumado. Nosso sorriso vem mais feliz assim.

quinta-feira, 28 de maio de 2009

Um empate

por Felipe Carrilho

Não se pode dizer que o empate de 1 x 1 entre o Corinthians e o Vasco tenha sido um mal resultado para o Timão. Se considerarmos ainda a história do gol fora de casa - aliás, um item esdrúxulo do regulamento que rege a Copa do Brasil - poderemos dizer que o Corinthians construiu ontem uma grande vantagem no Maracanã.

Entretanto, devido às circunstâncias do jogo, o empate representou mais um alívio para os vascaínos do que motivo de satisfação para a Fiel. O time carioca se mostrou tão frágil durante o primeiro tempo que um placar mais elástico parecia inevitável. Mas no segundo tempo, a equipe relaxou demais e permitiu a reação do Vasco.

Mano Menezes, demonstrando a clareza de sempre na leitura do jogo, resumiu bem a questão:

O empate na casa do adversário é bom, mas acho que nós tivemos nosso momento de superioridade no jogo, principalmente no primeiro tempo, e essa superioridade foi tão alta que poderíamos ter feito uma maior quantidade de gols.

A incapacidade demonstrada pelo Corinthians de converter em gols a superioridade apresentada em termos de volume de jogo e oportunidades criadas em campo - verificada também, em alguns momentos, nas partidas contra o Fluminense - parece estar relacionada a certa tranquilidade e confiança excessiva por parte do time de modo geral. O treinador, porém, há tempos demonstra ter percebido esta tendência no conjunto e, em especial, em alguns jogadores. As cobranças públicas sobre André Santos, em partidas passadas, por exemplo, mostraram isso. E, na entrevista após o jogo, Mano não deixou de abordar o problema:

Temos que aprender a aproveitar o nosso momento. Precisamos aprender a ser mais incisivos na hora da superioridade e transformar isso em vitórias, pois futebol é feito de vitórias. (...) Segurar a bola é uma situação do jogo, mas temos feito um pouquinho de confusão com isso.

Mano detectou o ponto fraco, mas o time precisará absorver a crítica e mudar de postura para sermos campeões.

As flores
Souza fez ontem a sua melhor partida com a camisa do Corinthians. Mesmo não marcando gols, movimentou-se bastante e articulou jogadas ofensivas, dando bons passes.

quinta-feira, 21 de maio de 2009

Divulgação

terça-feira, 19 de maio de 2009

sexta-feira, 15 de maio de 2009

A mídia ainda são-paulina?

por Sérgio Marcondes

Uma das coisas que mais tem me incomodado nos últimos anos, ao ler os cadernos de esportes dos jornais paulistanos e ver os programas e transmissões de TV, é que, com raríssimas exceções, sempre se difunde a visão da diretoria e da torcida do SPFC sobre tudo, sem qualquer crítica, qualquer contraponto e muitas vezes favorecendo os interesses do clube, sendo colocados como se fossem naturalmente os melhores e mais válidos, e ajudando ao marketing são-paulino, que procura fazer do seu time algo completamente diferente e imensamente superior aos outros clubes de futebol brasileiros. Achava que, talvez, uma das razões disso fosse que, bem ou mal, o SP tem vencido campeonatos nos últimos anos, o que, de um ponto de vista pragmático, daria um pouco de razão a esta postura. Mas o primeiro semestre de 2009 tem demonstrado o contrário: o SP não ganhou nada, tem jogado bem mal, foi eliminado com duas derrotas para o Corinthians do Paulista, e mesmo assim a postura da mídia não mudou em nada. Querem alguns exemplos?

1) A questão dos jogos no México da Libertadores. Sem entrar em outras questões, como a histeria criada em torno da nova gripe (quando existem doenças que matam muito mais pessoas, aqui mesmo no Brasil), ou a participação dos mexicanos em um torneio de outra confederação, a solução encontrada foi aprovada unanimemente por todos os jornais e TVs, e até por blogs de corinthianos como o Juca Kfouri. Eu já vi até alguns comentários, em transmissão de outros jogos, do tipo "se os mexicanos não querem jogar, nós queremos", e tal, que invertem totalmente a história! Ora, os mexicanos não quiseram jogar apenas uma partida fora de casa na casa do seu adversário (como se outros times fossem aceitar)! Outras soluções, como um jogo só em campo neutro, foram rapidamente descartadas, embora todos se apressem a descartar que haja vantagem para o SP ou qualquer preconceito contra os mexicanos... (embora o campeonato deles já tenha sido reiniciado e não haja qualquer recomendação da OMS para evitar viagens ao país). O mais curioso (ou patético) nessa história foi ver o Muricy, que morou no México vários anos e é adorado lá, se complicando todo para tentar defender a decisão da Conmebol sem criticar os mexicanos... Mas até ele, que é um funcionário do clube, foi menos "são-paulino" nos comentários do que os jornalistas.

2) Vamos fazer um exercício de imaginação. Já pensaram, se o Ronaldo tivesse ido para o SPFC e estivesse jogando com o mesmo nível de hoje em dia, quantas reportagens, menções e declarações de são-paulinos apareceriam sobre o centro de recuperação do time, seus médicos, fisiologistas, sua estrutura de nível inigualável no Brasil, que atrai até jogadores estrangeiros, seus métodos revolucionários, etc.? Em compensação, alguém viu ou leu alguma matéria sobre o centro de recuperação do Corinthians em relação ao Ronaldo? Eu, pelo menos, não vi nem li nada...

3) Como foi mostrado em um post de outro ótimo blog (http://bloguedotimao.wordpress.com/2009/05/06/post-26-acho-que-sampa-nao-tera-estadio-para-a-copa-do-mundo/), o Morumbi tem muito mais problemas para sediar a Copa de 2014 do que eu pensava. Questões de estrutura, de estacionamento, mesmo de capacidade para ser ampliado. Mas eu, lendo jornais e vendo reportagens de TV, nunca soube disso, parecia que a decisão já estava sacramentada, que o Morumbi não tem problema nenhum, que só precisa de uma ou outra obrinha mínima, e que é um estádio de nível internacional, de qualidade indiscutível, e motivo de inveja de todas as torcidas do Brasil e talvez do mundo...

4) Por fim, todo início de ano os diretores do SP dão entrevistas exaltando as contratações do time, "cirúrgicas", "brilhantes", "de nivel europeu", que tornarão um time que já é ótimo praticamente invencível. E o que acontece depois? Mais da metade dos reforços nem joga direito, alguns são vendidos sem nenhum alarde, poucos realmente se estabelecem no time... De 2008, Joilson, Juninho, André Lima, só para citar alguns "craques" que vieram e já foram embora sem terem feito nada ou são reservas dos reservas, sem nenhum comentário dos são-paulinos. Fora que, no ano passado, teve gente que disse que com o Adriano o SP seria invencível... E este ano? O contratado para a lateral-direita (Wagner Diniz) tem sido quarta ou quinta opção na posição, outros nomes nem jogado têm, e mesmo os que estão como titulares, Júnior César, Arouca e Washington, estão passando longe de serem reforços brilhantes para o time. E alguém, em algum lugar, se preocupa em questionar os diretores, ou lembrar das declarações iniciais deles, talvez mostrar que o SPFC não é tão infalível como gosta de se fazer?

São alguns exemplos (nem de longe os únicos) de como a mídia "compra" sistematicamente tudo que vem do SPFC, e trata de maneira desequilibrada esse time em comparação aos outros daqui. Será que algum dia isso vai melhorar? Ou os interesses econômicos não permitem isso?

quarta-feira, 13 de maio de 2009

Onde estão nossos ídolos???

Para provar que este blog, embora corintiano até nos ossos, adota uma postura "ecumênica" em relação a torcedores de outros clubes, publicamos, abaixo e extraordinariamente, um texto de um amigo que, apesar de palmeirense, é muito gente boa:
por Marcelo Russo

Numa época em que o futebol é apenas dinheiro aos olhos de muitos atletas, conseguimos garimpar algumas pessoas que fazem o seu trabalho não apenas pela parte financeira, mas também por amor.

Exemplo disso é Marcos Roberto Silveira Reis, ou simplesmente Marcos, São Marcos, Marcão. Goleiro da SE Palmeiras, vem se destacando no clube já há gloriosos 10 anos. Sua trajetória ao longo deste período, fez ele tornar-se um ídolo incontestável da torcida palmeirense.

Muitos desses torcedores, por outro lado, não têm a devida paciência quando uma contusão mais séria acontece e Marcos tem que se afastar e, por exemplo, em seu retorno, precisa levar um tempo para ter de volta sua forma física.

Como todo ser humano, Marcos é passível de erros. Suas falhas, que não são muitas, ainda são lembradas, mas será que recordamos de todas as vezes que ele salvou o time?

Enfrentamos uma carência tão grande de ídolos que, além de se identificarem com a torcida, jogam por amor ao trabalho. Além do exemplo de Marcos, temos, num passado cada vez mais distante, muitos outros que fizeram história em seus respectivos clubes, tais como: Sócrates, Neto e Marcelinho (Corinthians), Ademir da Guia e Oberdan (Palmeiras), Raí (São Paulo), Pelé, Clodoaldo e Pepe (Santos), assim como tantos outros que me faltam à memória.

Se formos analisar, nos dias de hoje, quem é ídolo em algum clube? Se eu estiver dizendo bobagem, por favor me corrijam, mas vejo apenas Marcos e Rogério Ceni, pelo Palmeiras e São Paulo respectivamente. Nem vou citar o Ronaldo do Corinthians, porque ele não se encaixa exatamente no que eu quero mostrar, pois chegou há apenas alguns meses e, apesar de estar jogando e ajudando o Corinthians, não tem a mesma história que nossos dois exemplos acima.

E o Santos, Portuguesa, Botafogo, Flamengo, Fluminense, Vasco, Cruzeiro, Atlético Mineiro têm quem? Viram onde quero chegar? Faltam a vários clubes não alguém que venha de algum lugar, se identifique e vá embora, depois de uma temporada ou um campeonato, atraído pelo tilintar das moedas estrangeiras.

Por isso, parabéns a Marcos e Rogério Ceni, que ainda conseguem levar no coração o escudo e as cores de seu time, sem se deixar abalar pelos altos e baixos da carreira. Sinto pena dos torcedores carentes de ídolos, pela falta de competência de alguns dirigentes, que só visam o lado lucrativo do futebol.

terça-feira, 12 de maio de 2009

Por uma diretoria corintiana


por Felipe Carrilho

Segue, abaixo, uma lista de preços de ingressos para assistir aos jogos do Corinthians, de acordo com cada setor, retirada do site oficial do clube:

Arquibancada Pt Principal
R$ 30,00 (inteira) / R$ 15,00 (meia)

Arquibancada Amarela Pt 3
R$ 30,00 (inteira) / R$ 15,00 (meia)

Arquibancada Pt 21
R$ 30,00 (inteira) / R$ 15,00 (meia)

Tobogã
R$ 30,00 (inteira) / R$ 15,00 (meia)

Cadeira Especial Laranja
R$ 100,00 (inteira) / R$ 50,00 (meia)

Numerada descoberta
R$150,00 (inteira) / R$ 75,00 (meia)

Área VIP Corinthians
R$ 250,00 (inteira) / R$ 125,00 (meia)

Arquibancada Pt 22 - Visitante
R$ 30,00 (inteira) / R$ 15,00 (meia)
(grifos meus)

Quem frequenta o Pacaembu pode perceber, pela análise desta vil tabela de preços, que o setor especial laranja passou, em pouco tempo, do preço de R$ 40 a R$ 70 e, finalmente, aos extorsivos R$ 100, num aumento de 150%!!!

Além disso, os ingressos mais "baratos" (R$ 30) referem-se aos setores de visão e condições de acesso mais precárias. Quem já assistiu a um jogo do Corinthians do "tobogã", por exemplo, sabe que, apesar da empolgação dos torcedores, é uma batalha para conseguir entrar no estádio, as arquibancadas ficam atrás do gol e longe do campo, além de o setor estar sempre superlotado.

Como Renato Godoy mostrou, no texto abaixo, a majoração nos preços dos ingressos, por parte da diretoria do Corinthians, está intimamente relacionada a um processo de elitização do futebol desencadeado em nível federal, como preparativo para a Copa do Mundo de 2014.

Na direção do Corinthians, Luis Paulo Rosemberg e Mário Gobbi mostram-se muito afinados com tal política. Para o primeiro, "ou cobramos o preço que equilibra oferta e procura ou teremos filas, cambistas e violência". Já Gobbi é mais direto, beirando o cinismo: "O ingresso está caro? Está barato. Aliás, está muito barato. O futebol é muito caro".

O que se pode notar pela análise das declarações dos dirigentes corintianos é a adequação da política do clube a uma lógica econômica perversa, que considera o Corinthians uma empresa ("preço que equilibra oferta e procura...") e condiciona a solução de problemas sociais ao implemento de uma gestão eficiente ("...ou teremos filas, cambistas e violência").

É lamentável que a diretoria do Corinthians pense desta maneira, pois não há nada menos corintiano do que a fria racionalidade do capital. O Corinthians construiu a sua identidade relacionando-se com os setores marginalizados de nossa sociedade e, por isso, representa simbolicamente a resistência destes.

Além disso, não podemos nos esquecer que foi durante o período de 23 anos "de fila" que a torcida do Corinthians mais cresceu. Fatos como este distanciam o corintiano da ideia de "consumidor de futebol", pois mostram que a lógica de sua existência é a da paixão incondicional e da dedicação gratuita.

Assim, a atual diretoria, ao priorizar a conquista de títulos à custa da retalhação de nosso manto sagrado por bancos e multinacionais e da espoliação da nação corintiana, atua como uma espécie de negativo da alma do clube.

segunda-feira, 11 de maio de 2009

A violência para além dos estádios (P.2)

por Renato Godoy

Conforme prometido aqui, publicamos abaixo a segunda parte da matéria originalmente veiculada no jornal Brasil de Fato sobre as medidas do governo federal para o combate à violência. A discussão tornou-se ainda mais propícia: as finais dos campeonatos estaduais passaram, sem quaisquer grandes indícios de violência. Porém, as medidas de elitização dos estádios estão mais rigorosas.
O maior exemplo disso é a atitude da diretoria do Corinthians. Mesmo com todo esforço para se passar como tão popular quanto sua torcida, a gestão Andrés Sanchez reajustou o preço em todos os setores do estádio do Pacembu. O corinthiano que for acompanhar o seu time contra o Fluminense na próxima quarta-feira, terá opções de R$ 30 a R$ 250. Como diria Andrés, isso é uma "sacanagem" que fazem com o corinthiano. Enfim, segue a matéria.

Elitização é sugerida por dirigentes
Brigas em setores mais caros desmentem associação entre pobreza e violência
Na esteira do pacote de medidas apresentadas pelo governo federal, dirigentes esportivos, cronistas e o próprio promotor Paulo Castilho aproveitaram para sugerir medidas de modernização nos estádios que acarretariam em encarecimento dos ingressos em troca de uma maior comodidade nas arenas.

“As coisas só irão melhorar quando todos os assentos forem numerados. Podem considerar isso como uma elitização do futebol. E, infelizmente, é”, admitiu o superintendente do São Paulo, Marco Aurélio Cunha, em um programa esportivo. O discurso do dirigente, também vereador pelo DEM na capital paulista, tem sido frequente entre formadores de opinião no âmbito esportivo. A elitização do esporte mais popular do país viria como consequência da modernização dos estádios e da busca de uma solução para a violência, segundo esse discurso.

Dois acontecimentos recentes no futebol paulista desmentem essa tese. Em uma partida entre Corinthians e Santos, na primeira fase do campeonato estadual, um tumulto foi iniciado entre torcedores corintianos das numeradas e dirigentes santistas que quase arremessaram uma placa de vidro contra os rivais.

Na semifinal entre Corinthians e São Paulo, os únicos tumultos registrados partiram de provocações e troca de tapas entre são-paulinos que estavam nos locais mais caros do estádios e os ocupantes das tribunas reservadas à diretoria alvinegra.

Na prática, o torcedor mais pobre já está sendo repelido pelo preço dos ingressos e pela forma como estes são vendidos (sempre em horário comercial). Tomando como exemplo os estádios onde jogam os quatro principais clubes do Estado de São Paulo – Morumbi, Pacaembu, Parque Antártica e Vila Belmiro – percebe-se que os locais com ingressos populares foram se restringindo.

Com exceção do Pacaembu, que pertence ao município, todos as outras três arenas firmaram recentes parcerias com a empresa de cartão de crédito Visa, criando um setor com assentos numerados em locais de visão privilegiada que outrora apresentavam os preços mais baratos. No entanto, a administração municipal foi a primeira a encarecer boa parte dos setores populares.

Pobreza e violência
De acordo com o sociólogo Mauricio Murad, essas leituras têm associado a pobreza à violência. “Mesmo que não seja consciente, essa associação parece que acontece, sim. O futebol é um dos maiores patrimônios de nossa chamada cultura popular e é isso que deve ser preservado, reforçando as nossas raízes históricas e sociais e combatendo todas as práticas de violência no mundo do futebol. Inclusive aquelas violências pouco citadas, como o racismo, o exclusão por gênero, por opção sexual e a exploração de dirigentes e empresários”, pontua.

Fim de organizadas aumentaria a violência, diz socióloga
A cada episódio de violência vinculada ao futebol, surgem opiniões na imprensa defendendo a extinção das torcidas organizadas. No entanto, a medida já foi experimentada em São Paulo e em nada alterou o quadro.

Em 1995, as torcidas do São Paulo e do Palmeiras protagonizaram a cena mais violenta da história do futebol brasileiro. Após uma partida entre juniores das duas equipes, os espectadores invadiram o gramado do Pacaembu e confrontaram-se com paus e pedras, vitimando um torcedor são-paulino.

Com a comoção em torno do caso, o promotor público Fernando Capez, hoje deputado estadual pelo PSDB, pediu o fechamento da Mancha Verde (do Palmeiras) e da Independente (do São Paulo). Os episódios de violência não cessaram, tal como a atividade das torcidas, que ressurgiram com pequenas alterações em seus nomes.

Pertencimento
Para a socióloga Heloísa Reis, ao extinguir essas agremiações, o Estado está desistindo desses jovens. “Não concordo com o fim das torcidas organizadas. A sociedade brasileira hoje se caracteriza pela falta de participação política, sobretudo dos jovens. Nas torcidas organizadas, há uma juventude masculina que atua. Se acabarem com estas entidades, virará um caos. O Estado perde o controle sobre esses jovens”, acredita a socióloga, que propõe uma maior aproximação entre as torcidas e as universidades para desenvolver programas educativos.

Augusto Juncal, do coletivo Rua São Jorge dos Gaviões da Fiel, atesta que, sem uma direção, muitos torcedores estariam mais predispostos a brigar. “Muitas ações violentas são evitadas porque há uma organização, uma diretoria que segura. Por exemplo, no confronto entre a torcida do Corinthians e a polícia no jogo em que perdemos pro River Plate [na Taça Libertadores, em 2006], se não fosse a atuação da diretoria, poderia ter ocorrido um massacre. O povo tava cego e a diretoria tirou eles de lá. Muitas vezes estamos caminhando para o estádio e alguns querem desviar o caminho para 'pegar' adversários. E a gente não deixa”, exemplifica.

Para o torcedor, os jovens, quando ingressam numa torcida organizada, buscam ser ouvidos e o sentimento de pertencimento. “A maioria de nós não pode ser sócio de um clube, nem do Corinthians, porque não temos 50 paus por mês para pagar a mensalidade. É uma questão de pertencimento. Os ricos têm essa sensação de pertencer a um clube luxuoso, ele usa isso como modo de estar na sociedade. E nós também, somos os Gaviões”, define.

domingo, 10 de maio de 2009

Campeonato Nacional de Futebol em São Paulo


por Rui de Castro

Mais uma vez volto a falar sobre a final do Campeonato Paulista de Futebol, para mostrar o que, ou quem, se representa nos gramados paulistas, apenas nos paulistas, porque se fossemos falar dos campos brasileiros teríamos muito, mas muito, assunto.

Os estádios de São Paulo recebem jogadores de todos os Estados do Brasil, e até de fora do País. Aí talvez esteja um dos grandes aspectos da atração e da magia do futebol. Dentro de campo não existem diferenças, não interessa se o jogador veio do Sul, o paulistano vai torcer por ele como um louco, com todo o fanatismo que este esporte bretão permite.

Na final entre Corinthians e Santos, grandes foram os destaques dos dois lados. A disputa era paulista? Isso não impediu em nada os avanços do carioca Madson (Volta Redonda/RJ), que parou nas mãos do também carioca Felipe, que foi revelado pelo time baiano do Vitória, assim como o Fábio Costa, este sim baiano de Camaçari.

Se um grande clube começa por um grande goleiro, a Bahia nos mandou dois de uma vez para a final, o que nos permite enviar um pedacinho desse troféu para lá.

Mais destaques? Pela lateral direita do Corinthians, o paranaense Alessandro (Assis Chateaubriand/PR) nem queria saber se a bola iria encontrar o carioca de Bento Ribeiro, Ronaldo, ou o de Resende, Jorge Henrique, ou mesmo o mineiro Cristian (Belo Horizonte/MG), o importante era o gol. Nisso todos tinham o mesmo sotaque.O eficiente santista Germano (Toledo/PR) não pedia a certidão de nascimento antes de tocar a bola para o maranhense Kleber Pereira (Peri-Mirim/MA).

Se, na semifinal, os quatro grandes clubes de São Paulo estavam presentes, trouxeram a campo grandes jogadores de todo o Brasil. Pelo São Paulo, a bola passava pelos pés de Hernanes (Recife/PE), de Borges (Salvador/BA), de Washington (Brasília/DF) e pelas mãos de Rogério Ceni (Pato Branco/PR). Do lado do Palmeiras disputaram a redonda Diego Souza (Rio de Janeiro/RJ), Keirrison (Dourados/MS), Cleiton Xavier (São José da Tapera/AL), dentre outros.

Sem injustiças, apenas por questões de espaço do blog, muitos não serão citados, mas estão aí escrevendo suas histórias, ajudando a escrever a história dos clubes, grandes ou pequenos. Esse é um grande “barato” do futebol: as cores das camisas e das bandeiras mudam, mas nos treinos, nas concentrações, nos vestiários e nos gramados, todos são, acima de tudo, brasileiros. Não discriminam sotaques, nem origens; nos campos, o Brasil não se coloca contra o Brasil, antes caminha lado a lado, pelas laterais, pelo meio, pelo ataque para fazer mais brasileiros felizes.
Hoje a taça repousa na sala de troféus do Parque São Jorge, mas poderia estar em qualquer lugar desta Nação.

quarta-feira, 6 de maio de 2009

Desde criancinha

Este aí é o Ronaldo Santanielli, o nosso chargista. Nessa época, era comum, no Corinthians, confundi-lo com outro Ronaldo, o Giovanelli. Faz sentido, ambos eram craques do Timão...

terça-feira, 5 de maio de 2009

Vice


por Rui de Castro


O que leva um time ao vice-campeonato? O que faz um time percorrer toda uma competição, derrotando vários adversários pelo caminho, e perder exatamente a partida que não se pode perder? A resposta pode estar numa conversa informal, que presenciei entre dois torcedores, numa lanchonete da capital paulista, às vésperas de uma decisão.

Vila Belmiro, 26 de abril de 2009. A cidade de Santos recebe os dois finalistas do Campeonato Paulista de 2009. De um lado os anfitriões, o Santos Futebol Clube, do outro, o visitante Sport Club Corinthians Paulista.

Muitos poderiam imaginar que o visitante iria apenas se defender na casa do adversário, mas o Corinthians foi além, atacando muito e conseguindo a expressiva vitória por 3x1, na presença do rei Pelé e tudo.

Ainda que o Santos manifestasse, através do seu técnico e dos jogadores, uma reação para a próxima, e decisiva, partida, o time do parque São Jorge havia dado um passo importantíssimo para mais um título paulista.

O que restava ao Santos? O que restava a um time que se classificou apenas na última partida, diante da Ponte Preta, de forma bastante questionável? O que restava ao time de um técnico que na semifinal colocou um jogador, aparentemente apenas para provocar o adversário (Domingos X Diego Souza, lembram-se?), esquecendo-se talvez que jogadores jogam, lutadores lutam? O que restava ao Santos contra o invicto Corinthians?

Voltemos à lanchonete e à conversa dos dois santistas. Eles, já sem esperança alguma, declararam que seria impossível ao Santos reverter a vantagem corinthiana, mas queriam uma vitória apenas para “carimbar” a faixa do campeão.
Essa mentalidade pequena e típica dos perdedores deve ter tomado conta da Vila Belmiro, ainda que não o admitissem. O técnico Vagner Mancini demonstrou não ter o principal para se dirigir um grande time: uma grande mentalidade, o popular “pensar grande”. O modo como o Santos se abateu, após o gol de empate do Corinthians, mostrou isso.

O diálogo na tal lanchonete ilustrou bem o que talvez tenha sido o único objetivo dos alvinegros praianos no estádio Paulo Machado de Carvalho, no último domingo, o histórico 3 de maio. Como terminou essa história? O Corinthians conquistou merecidamente o seu 26º título paulista e ao Santos restou o vice, talvez de forma imerecida. Seria mais digno ter enfrentado a lusinha.

O Fenômeno voltou

segunda-feira, 4 de maio de 2009

Coisas que só acontecem com o Botafogo...



por Maurício Rodrigues Pinto

E Cuca conseguiu conquistar o seu primeiro título como treinador. E deve ser muito grato à sina do Botafogo, que, mais uma vez, conseguiu fazer o improvável na decisão do Carioca.

Desfalcado de dois dos seus melhores jogadores, o Alvinegro saiu perdendo por 2 a 0. No início do segundo tempo, desperdiçou um pênalti. Até que acontece o que parecia ser impossível: uma reação relâmpago com gols de Juninho e Tulio Souza, aos 16 e aos 18 minutos.

Imagino a angustia que recaiu sobre Cuca após a reação botafoguense e depois, chegado o momento dos pênaltis. Certamente, religioso como é, deve ter lhe ocorrido o pensamento: "mais uma vez, meu Deus..."

Mas, foi a vez de Cuca e o Fla foi tricampeão em cima do Botafogo. Ao despencar de cara no gramado, depois da último penal defendido por Bruno (o principal jogador da decisão), via-se ali um homem que, finalmente, parecia respirar aliviado. Ou como o mesmo disse na coletiva, tirava "um caminhão pesado de cimento" das suas costas.

Como na decisão de 2007, a primeira da série de decisões entre Bota e Fla, os dois jogos decisivos terminaram em empates por 2 a 2 e o título foi ganho pelo Rubro Negro na decisão por pênaltis.

E curiosamente foram os dois únicos remanescentes daquele vice-campeonato, Juninho e Leandro Guerreiro, os botafoguenses que perderam as suas cobranças na decisão por pênaltis. Penais defendidos por Bruno, goleiro que também fora o herói do título de 2007, defendendo duas penalidades.

Tantas coincidências só poderiam acontecer com o Botafogo...

Balanço final do Paulistão corintiano

por Felipe Carrilho

Depois de enfrentar um árduo Campeonato Paulista, o Corinthians se sagrou campeão pela 26ª vez e, de maneira invicta, pela 5ª vez em sua história: 1914, 1916, 1929, 1938 e 2009.

Foi uma competição emocionante para nós, corintianos. Após fazer uma grande campanha na série B, o Corinthians iniciou o campeonato estadual inseguro e instável. A maneira tímida como Mano Menezes escalava o time nos primeiros clássicos ilustra bem isso. Havia uma nítida preocupação em se autoconvencer primeiro de que era possível vencer os grandes rivais. Talvez Mano tenha demorado a perceber o real valor de seu time, mas o fez a tempo, surpreendendo a todos com o esquema tático ofensivo que montou para as semifinais e finais do campeonato.

Outro ponto a salientar foi a maneira como eliminamos o São Paulo. Atual campeão brasileiro, o time mais pretensioso do Brasil caiu ante um Corinthians claramente melhor nos dois jogos das semifinais. Ronaldo, como havia sido contra o Palmeiras e seria frente ao Santos, foi decisivo e mágico na ocasião.

Mano e Ronaldo

Outro ponto positivo foi o modo como Mano Menezes conduziu a adaptação de Ronaldo ao Corinthians. Muito sereno e profissional, o técnico soube escalar o craque nas horas apropriadas, não cedendo a pressões de patrocinadores, mídia etc. Boa parte de seu grande rendimento, Ronaldo deve à sabedoria de Mano Menezes.


O craque do time

Nem Ronaldo, nem Elias, ou Felipe. O jogador mais importante do Corinthians foi Cristian. Volante discreto, foi um leão no meio campo corintiano. Sua capacidade de marcação e senso de posicionamento foram fundamentais para que Mano Menezes se sentisse seguro para abandonar de vez o esquema com três zagueiros. Ainda que isso não bastasse, Cristian fez também os seus gols, como o inesquecível que marcou contra o São Paulo, no primeiro jogo da semifinal, encarnando a alma corintiana.

Porém...

A lamentar, apenas algumas questões: O modo como o presidente do Corinthians, Andrés Sanchez, tentou chamar mais a atenção do que os jogadores, erguendo a taça antes do capitão Willian! Do mesmo modo, o intruso bando de políticos presentes na premiação.
Além disso, como lucidamente salientou Ronaldo, a desorganização da festa - que colocou o nosso capitão em perigo, ao se ver envolvido pelo pequeno incêndio causado pelos fogos de artifício - e finalmente, o assédio exagerado dos jornalistas sobre o fenomenal centroavante.

Apesar dos pesares, aqui é Corinthians!

sexta-feira, 1 de maio de 2009

Uma passadinha pela final do Carioca: inspiração direto da Torre da Barão



por Maurício Rodrigues Pinto

Essa é a minha primeira contribuição ao blog. Passei um tempo pensando sobre o que iria escrever e encontrei alguma inspiração na minha estada no Rio de Janeiro. Passei, justamente, o fim de semana no qual acontecia aquela que seria a primeira das três decisões entre Flamengo e Botafogo.

Era visível que o Rio era uma cidade em clima de decisão. Muita gente nas ruas e na praia ostentando as suas camisas de Botafogo e, em número muito maior, de Flamengo. Curti um domingo tipicamente carioca: praia de Ipanema com direito a sol, calor, areia fofa e mate com limão gelado (delícia!!!). Para completar esse domingo, almoço regado a chopes (no Rio, por melhor que sejam, não passam de razoáveis) e caipirinha (essa, sim, muito bem preparada) e acompanhando a final da Taça Rio, entre inúmeros flamenguistas e um botafoguense assumido.

O jogo não foi lá grande coisa, mas venceu quem sempre buscou o jogo. O Bota, que podia ser campeão naquele jogo, adotou uma tática conservadora e optou por jogar nos erros do adversário. Quase deu certo no 1º tempo, pois o sistema defensivo do Flamengo ofereceu duas chances claras de gol ao Botafogo, desperdiçadas por Victor Simões (de forma bisonha) e por Maicossuel (chute na trave).

O Fla foi o time que, se não fez um bom jogo, ao menos mostrou que estava disposto a jogar. Teve maior posse de bola, maior volume de jogo, mas esbarrava nas suas limitações ofensivas. Basta dizer que os atacantes do Mengo são Emerson (!?), Josiel e Obina - hoje, segundo reserva.
No segundo tempo, o Rubro-Negro, de forma desordenada e esbarrando na ineficiência do ataque, aumentou a pressão e procurou mais a vitória e o Bota foi ainda menos ousado, pois nem mesmo conseguia contra-atacar.
Diante deste cenário, o gol só podia ter acontecido da maneira como aconteceu. Falta a favor do Fla próxima a grande área, bola lançada na área, o zagueiro Ronaldo Angelim desvia de cabeça e Emerson (não o atacante do Fla e, sim, o zagueiro do Botafogo) chuta para o gol. 1 x 0 e placar final. Flamengo campeão da Taça Rio e mais dois jogos para se decidir quem será o Campeão Carioca de 2009.

A terceira final consecutiva entre Botafogo e Flamengo. O Flamengo tentando o tri, mas tendo no banco o homem que foi derrotado nas duas finais anteriores, o técnico Cuca. Essa final tem uma peculiaridade das mais interessantes. Coloca em lados opostos criador versus criatura. Cuca ainda tem forte identificação com o Botafogo, time que se notabilizou pelo jogo ofensivo e pelo futebol bonito, mas que ficou ainda mais famoso pelas derrotas (popularmente, amareladas) nos momentos decisivos.

Cuca e o Botafogo guardam traumas e, possivelmente, alguns temores, mas também querem - e precisam - provar que podem ser vencedores.
Mantida a igualdade no primeiro jogo, mesmo com o desfalque de Maicossuel (o improvável craque do Botafogo e do campeonato), em uma final marcada por um duelo entre "amarelões", é impossível dizer quem, no próximo domingo, finalmente poderá extravasar a frustração pelos fracassos recentes e soltar o grito de "É CAMPEÃO!!!!".

Ps.1: Cuca tem muito mais a perder do que o Botafogo. Existe o bordão "Coisas que só acontecem com o Botafogo" e, entre os grandes cariocas, é o time menos vencedor. Por outro lado, quem pode contar com personagens como Garrincha, Nilton Santos, Didi, entre outros, sempre terá uma bela história no futebol.

Cuca é um treinador conhecido por formar times que sabem jogar de forma ofensiva, mas que não sabe lidar com a pressão das decisões e sempre se abate nas derrotas. Até o momento nunca conquistou um título e a cada derrota em final, tem o seu trabalho cada vez mais contestado. O seu Flamengo, diferente dos outros times que formou, não tem jogado um belo futebol, mas mais uma derrota poderia enterrar definitivamente a carreira de um treinador que tem o mérito de ser um dos poucos a optar por uma forma de jogar baseada na ofensividade ou pelo tomar a iniciativa do jogo.

Ps. 2: No dia decisão, a única camisa de time que vi, além de Botafogo e Flamengo, foi, curiosamente, a do Corinthians. Foram 3 pessoas usando camisas do Corinthians. Para mim, pareceu-me um dado muito significativo. Por mais corinthiano que seja esse blog, esse dado foi comprovado por uma são-paulina que naquele mesmo dia, saiu da Torre da Barão levemente insatisfeita...

segunda-feira, 27 de abril de 2009

Mais Ronaldo



por Felipe Carrilho






É claro que, ontem, o Corinthians fez um bom jogo e, por isso, obteve um grande resultado diante do Santos. Entretanto, não podemos deixar de perceber a grande atuação do destaque da partida: Ronaldo.

Ronaldo, pode-se dizer, foi (ou tem sido) como Romário na Copa de 94. Teve a posse da bola em apenas meia dúzia de oportunidades, errou dois passes de maneira infantil (ao contrário do que o Baixinho costumava fazer, naquela ocasião, é verdade) e fez dois lindos gols, o primeiro digno de Romário e o segundo digno de Pelé.

Os gols

Aos 25 minutos do primeiro tempo, o placar estava 1 a 0 para o Corinthians, gol de falta de Chicão, quando Ronaldo recebeu uma bola espanada pelo mesmo zagueiro. Dominou com maestria, a bola grudada no seu pé direito por um instante, dominando e armando, ao mesmo tempo, o chute rápido de esquerda, sem chances para o goleiro Fábio Costa.

O segundo gol foi ainda mais espetacular. Aos 31 minutos do segundo tempo, quando o Santos tentava desesperadamente empatar a partida, Ronaldo recebeu um passe de Elias, aplicou um drible seco e característico no lateral Triguinho e, quando todos esperavam que ele fosse tentar devolver a bola ao Elias, ou que fosse partir para cima da defesa santista, ou, ainda, arriscar de qualquer maneira de fora da área, Ronaldo, de modo genial e assustador, não bateu na bola, acariciou-a, de esquerda, por cima do atônito goleiro do Santos: 3 a 1.

Foi um gol de rei, tanto que o Rei afirmou: "Foi gol de Pelé na Copa do Mundo".

sexta-feira, 24 de abril de 2009

Lendas de Ogum

por Felipe Carrilho


Apresento, a seguir, alguns mitos colhidos a respeito do orixá Ogum, a versão mais corintiana de São Jorge, em homenagem ao seu dia, 23/04:

(1) Ogum foi o segundo filho de Iemanjá e era muito ligado ao irmão mais velho, Exu. Os dois eram muito aventureiros e brincalhões, estavam sempre fazendo estrepolias juntos. Quando Exu foi expulso de casa pelos pais, Ogum ficou muito zangado e resolveu acompanhar o irmão. Foi atrás dele e por muito tempo os dois correram mundo juntos. Exu, o mais esperto, resolvia para onde iriam; e Ogum, o mais forte e guerreiro, ia vencendo todas as dificuldades do caminho. É por isso que Ogum sempre surge no culto logo depois de Exu, pois honrar seu irmão preferido é a melhor forma de agradá-lo; e enquanto Exu é o dono das encruzilhadas, Ogum governa a reta dos caminhos.
(2) Quando Ogum conquistou o reino de Irê, deu o trono para o filho e partiu em busca de novas batalhas. Anos depois, ele voltou; mas chegou no dia de uma festa religiosa em que todos deviam guardar silêncio. Sentindo sede, quis beber, mas o vinho havia sido todo usado no ritual religioso; pediu comida e ninguém lhe respondeu, por causa da proibição religiosa. Pensando que o desprezavam, Ogum puxou a espada e matou todo mundo. Quando terminou a cerimônia religiosa, o filho veio ao encontro de Ogum, prestou-lhe todas as homenagens e ofereceu-lhe um banquete. Quando lhe explicaram o que ocorrera, Ogum ficou horrorizado com seu crime. Cravou a espada no chão e fez com que se abrisse um grande buraco por onde se afundou, tornando-se desde então um Orixá.
(3) Depois que Exu foi expulso de casa pelos pais, ficou decidido que Ogum, o segundo filho, seria o sucessor do pai no governo. Entretanto, Ogum não gostava desse tipo de atividade. Seu prazer estava nas aventuras. Quando substituiu o pai durante uma viagem deste, Ogum deixou de lado as funções de governante, dedicando-se a passeios e confusões com os amigos. Estava sempre se metendo com as namoradas alheias e arrumando brigas. Para mantê-lo sossegado, então, o pai lhe deu o comando do exército e a missão de responder às agressões ao reino e de conquistar novos territórios. Nessas atividades, ele foi muito bem sucedido.

Há um ótimo texto sobre São Jorge e seu sincretismo com Ogum em http://anarcorinthians.blogspot.com/2009/04/ao-santo-padroeiro.html


Patakori!

quinta-feira, 23 de abril de 2009

A violência para além do futebol

por Renato Godoy

Há cerca de um mês, o governo federal lançou um pacote para, segundo o próprio, solucionar a questão da violência no futebol. Em muitos aspectos as medidas são inspiradas no modelo europeu, com encarecimento dos ingressos e repressão pesada para os que causarem distúrbios. Grosso modo as medidas reproduzem o que o senso comum aponta como solução para a violência em geral: monitoramento das áreas de risco, aumento de pena e novas prerrogativas jurídicas. Por outro lado, há itens interessantes que podem acabar com o cambismo, facilitando o acesso ao ingresso e punindo dirigentes que promoverem tal atividade. Escrevi uma reportagem para o jornal Brasil de Fato sobre o assunto, ouvindo dois acadêmicos e um membro dos Gaviões da Rua São Jorge. Por ser um tanto extensa, vou publicá-la em três trechos. O primeiro segue abaixo, os próximos postarei até o fim da semana.

Pacote contra violência no futebol: vigiar e punir apenas?
Governo lança medidas com caráter punitivo para pacificar os estádios, sem atacar as causas dos distúrbios


Desde 2004, cerca de 40 torcedores foram assassinados por questões ligadas ao futebol. Essa violência motivada por desavenças entre torcedores rivais tende a ser tratada cada vez mais como caso de polícia. Após reuniões entre Ministério Público e estudiosos do assunto, os ministérios do Esporte e da Justiça emitiram, em março, um projeto de lei que visa criminalizar atitudes violentas, cobrindo brechas da lei que, segundo entusiastas da medida, davam margem à certeza da impunidade.
Portar pedaços de pau, pedra ou fazer apologia à violência num raio de 5 Km do estádio passa a ser um crime semelhante ao porte ilegal de armas. A prática dos cambistas também será passível de detenção de até dois anos. Neste último caso, se o infrator for ligado a algum clube, a pena pode ter acréscimo de um terço.
Apesar de não constar no conjunto de medidas do governo, há uma proposta que ganhou força e foi motivo de polêmica: a criação de uma carteira nacional de identificação de torcedores, que seria obrigatória para quem quiser frequentar estádios com capacidade superior a 10 mil espectadores. Por enquanto, o governo prevê apenas a implementação de um cadastro nacional e a instalação de um sistema de monitoramento nas principais arenas.

“Controle social”
A medida complementaria uma lei que já entrou em vigor nos estádios da capital paulista, que restringe um setor aos torcedores organizados com cadastro na Federação Paulista de Futebol e na Polícia Militar. No entanto, especialistas e representantes de torcidas criticam a instituição da carteirinha. Já a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) vai além e questiona a constitucionalidade do projeto.
Na avaliação de Augusto Juncal, membro do coletivo Rua São Jorge dos Gaviões da Fiel, maior organizada do país, com cerca de 80 mil associados, as novas medidas apresentadas pelo governo federal servem mais como mecanismo de controle social do que como garantia de maior conforto aos torcedores de futebol.
“Apesar de, na época do cadastramento das torcidas organizadas [determinada pelo Estatuto do Torcedor], os Gaviões terem apoiado a medida, sempre fui contra ela. A maioria achava que aquilo fazia parte de uma coisa maior, e que se tudo que estava previsto [no Estatuto] fosse cumprido, seria bom. Mas alertei que eles estavam preocupados apenas em nos cadastrar. Agora estamos vendo o que ela representa. Eu e antigos diretores da torcida acompanhávamos muitos garotos que iam se cadastrar na Polícia Militar. E eles sofriam humilhações. Eles gravam voz, impressões digitais...'Ah, vocês são de organizadas, são bandidos', diziam os policiais. Tratavam eles como marginais”, explica.

Para ele, o cadastramento nacional faz parte de um quadro de “militarização” do país. “Isso é um exercício de controle da sociedade, para saber quem você é, se já teve problema com a polícia, se é de movimento social. Não há outro objetivo. Não reduz violência. Porque as brigas raramente ocorrem nos estádios. Elas acontecem no metrô, nas imediações. As violências nos estádios partem da polícia”, denuncia.

Ressalvas
Para a socióloga Heloísa Reis, da Unicamp, a eficiência da medida é questionável. “O cadastramento do torcedor é bom, mas não há necessidade da carteirinha, acho que é um mecanismo caro e burocrático. O estatuto do torcedor de 2003 já prevê o monitoramento dos estádios acima de 10 mil lugares, bem como o cadastramento dos torcedores organizados”, pondera.
Na opinião da socióloga, que tem participado de reuniões com o Ministério dos Esportes, há uma maneira mais simples de se fazer o cadastramento. “O governo deveria incentivar os clubes a vender ingressos para a temporada inteira [tal como é feito nos principais campeonatos europeus]. Assim, os clubes cadastrariam os torcedores e ele saberia quem são as pessoas que frequentam o estádio”, propõe.
Outro especialista no assunto, o sociólogo Maurício Murad, da Uerj, também critica o projeto. “A carteira de identificação é uma medida superficial, que não alcança o cerne de nenhuma das causas principais da violência, que atinge os nossos estádios de futebol e o entorno a eles. Acho que um projeto de combate à violência em qualquer setor social deve ser rígido, sim. Não se pode ser complacente com o vandalismo. Contudo, um plano de combate efetivo deve contemplar três grandes níveis de atuação que devem ser interligados, permanentes e atender à cultura local. Reeducação, prevenção e punição. Acho que as causas principais, de fato, não estão sendo alcançadas pelo projeto do governo”, afirma.
Para Augusto Juncal, o cerne da questão não está sendo abordado pelo Executivo federal. “A maioria da molecada que chega para se associar aos Gaviões, que tem em torno de 15 anos, vem da periferia. Eles já vêm com uma carga de violência daquela realidade; às vezes eles chegam lá após o pai bater na mãe durante o dia inteiro. São pessoas que aprenderam a resolver os problemas de forma violenta. Não têm palavras para argumentar, porque não têm estudo. Então resolvem desse jeito. Existiam brigas no futebol já no início do século 20. Então, junta-se tudo, os problemas sociais, os descontentamentos individuais, a situação em que vivemos e a carga de violência que já está contida no esporte. Aí, tudo descamba para o futebol. Por isso que muitas vezes não conseguimos controlar”, explica.

Medidas radicais
O promotor público Paulo Castilho, que acompanha a questão da violência no futebol, tem elogiado tais projetos. Até porque ele foi um de seus entusiastas. Porém, Castilho vem apresentando outras medidas polêmicas, tais como a redução da carga de ingressos para visitantes para 5% e que estes saiam do local da partida depois dos torcedores mandantes. No Campeonato Paulista, a sugestão do promotor foi posta em prática, até o momento sem grandes incidentes nos arredores. No entanto, foi quebrada a tradição de estádios divididos entre duas grandes torcidas, como ainda ocorre no Maracanã (RJ) e no Mineirão (MG).
Citando o que já ocorre na Argentina, o ministro dos Esportes Orlando Silva vai além das iniciativas defendidas por Castilho: em clássicos, o estádio deveria ser inteiramente destinado aos mandantes. Silva pondera que a medida seria apenas em caráter emergencial. Além destas propostas, medidas de caráter declaradamente elitistas tendem a serem implementadas.